Um Parto Anormal – Relatos de uma Mãe

Antes de falar sobre meu parto “anormal”, preciso contar como foi meu parto “normal”:

Durante minha primeira gestação, me preparei pra ter um parto natural. Depois de um curso de gestantes, decidi que não iria me submeter a uma cesárea de jeito nenhum. Mostraram imagens da cirurgia durante o curso, com o intuito de aterrorizar as mães mesmo, e comigo funcionou. Eu fazia então hidroginástica, Pilates de preparação para o parto, me alimentava bem e estudava sobre parto natural, essas coisas que só quem está grávida entende. Eu ansiava por sentir minha primeira contração, aquilo já tinha virado uma certa obsessão na minha mente. Eu idealizava um parto tão natural, eu estava tão confiante, que me via como uma índia parideira, um certo orgulho pela minha descendência indígena me vinha a mente acho.

Numa noite, jantando na casa de amigos, senti sair um pouco de líquido. Fiquei quietinha, não contei pra ninguém, afinal ainda era muito cedo, eu estava de 36 semanas. De repente, senti de novo sair mais um pouco de líquido, fui ao banheiro, não era xixi, era um líquido rosa bem clarinho. Falei pro meu marido: “Amor, acho que minha bolsa estourou”. Liguei pra fisioterapeuta, com quem eu fazia Pilates, e ela me disse pra irmos para o hospital, para avaliar. Fui em casa, peguei, ou melhor, fiz a mala da maternidade e seguimos para o hospital. Era umas dez horas da noite de uma sexta-feira. Fui internada, como normalmente é feito no caso de bolsa rota.

Minha médica estava viajando (aquilo que toda gestante torce pra não acontecer), então conversei com o obstetra de plantão e sinalizei que eu queria uma parto normal. Fui encaminhada com meu marido para uma sala de pré-parto e lá ficamos. Começaram as contrações, bem de leve. Tão de leve que eu nem tinha certeza se elas eram reais ou força da minha imaginação. Deitei na maca, meu marido se esticou numa cadeira e dormimos. Durante a noite, enquanto as enfermeiras vinham me examinar, eu acordava, mas nada de trabalho de parto.
E foi só isso. De manha o médico veio, disse que não poderíamos mais esperar e que precisaria ser feita uma cesárea. Eu fiquei muito frustrada e pior, desesperada por dentro, porque eu não não tinha me preparado para a cirurgia que eu ia fazer em menos de 30 minutos. Toda aquela minha expectativa do parto foi por água abaixo e com tristeza fui pro centro cirúrgico. “Sorria meu amor, hoje é o dia do nascimento do Davi!”-dizia meu marido. Minutos depois nosso filho estava nascendo e foi muito emocionante ouvir o choro dele e ver o rosto dele pela primeira vez.
A recuperação foi bem dolorida no primeiro dia e levantar pra fazer xixi era uma dificuldade, eu parecia uma velhinha indo até o banheiro, toda encurvada. No segundo dia eu já estava bem melhor e saímos do hospital felizes: eu, meu marido e nosso primogênito. Um ano e meio depois, quando meu segundo filho nasceu, considerei esse meu primeiro parto como sendo bem “normal”.
Meu segundo parto foi realizado às pressas, com 32 semanas de gestação. Fui numa consulta de rotina na obstetra e ela pediu pra que eu fosse até o hospital pra fazer uns exames, pois era necessário ouvir melhor o coração do bebê. Achei aquilo normal e fui até o hospital. Durante um exame de ultrassom a médica me disse: “mamãe, temos que tirar esse bebê daí porque ele está em sofrimento”. Engoli seco, tentei ligar pra meu marido mas eu só chorava. Passei o telefone pra enfermeira, troquei de roupa e já na maca assinei papeis sem nem saber do que se tratavam. Antes mesmo do meu marido pensar em chegar, nosso filho já tinha nascido e estava na UTI.
Quando fui encaminhada para o quarto, pude finalmente ver meu marido e ele com uma cara triste me disse: “Amor, fui até a UTI e o médico disse que é muito difícil que o Jônatas sobreviva”. Eu ainda estava anestesiada acho, em choque por todo o estresse que tinha passado. Lembro de ir dormir sem entender direito o que estava acontecendo comigo. Quando pude ver meu filho na UTI, a dor começou a intensificar e pude enxergar a gravidade da situação. Eu nem conseguia ver o rostinho do meu filho direito, por causa do tubo que estava em sua boca. Eu só chorava e preferia nem ficar ao lado dele.
No terceiro dia, recebi alta e fomos pra casa, eu e meu marido, sem nosso filho nos braços, o que é a coisa mais anormal pra uma mãe que estava grávida. Ainda tivemos a notícia de que os médicos estavam estudando a possibilidade de colocar um marca-passo no nosso filho, para normalizar os batimentos do coração. Arrasados com o que estava acontecendo, na ida pra casa me veio a lembrança um sonho que uma amiga tinha me relatado meses antes. No sonho, eu e ela estávamos andando de carro com nossos filhos e ela me dizia: “Olha só Carol pro Jônatas, nem parece que passou por três cirurgias cardíacas, está tão bem”. Lembrar daquele sonho foi como sentir um abraço de Deus, um consolo que nos dizia que não ia ser fácil, mas que tudo ia ficar bem. “Cirurgia cardíaca” era muita coincidência com o que estávamos passando, era como se Deus estivesse do nosso lado, nos avisando e nos mostrando o que de fato estava por vir, mas que não era pra desanimarmos.
Os dias não foram fáceis, aliás 4 meses entre idas e vindas ao hospital, internações na UTI e de forma precisa, como no sonho, 3 cirurgias. Nós não acreditávamos e nem queríamos que tivesse havido a segunda cirurgia, mas quando veio a terceira tivemos a certeza, está acabando! E assim aconteceu, como no sonho, nosso filho passou por 3 cirurgias (a primeira cardíaca para colocação do marca-passo e as seguintes foram correções de problemas causados pela primeira cirurgia). Nosso filho ficou entre a vida e a morte diversas vezes. E nós numa tristeza e cansaço.
Hoje, assim como predito naquele sonho, nosso filho está ótimo! Quando penso e lembro dessa história, a única coisa que consigo concluir é que Deus tem os seus planos, que Ele é misericordioso e muito amoroso.
Não consigo compreender os caminhos de Deus, mas pra minha vida esse acontecimento trouxe muitos ensinamentos. Eu era uma mãe super protetora e não costumava pedir ajuda pra ninguém com relação aos cuidados do meu filho. Quando o segundo nasceu, eu fui obrigada a quebrar esse orgulho e pedir ajuda. Passei dias no hospital e como era bom saber que eu tinha pessoas com quem eu podia contar em minha casa, familiares e amigos.
Percebi o que de fato é uma situação de risco para uma criança e o que é passar por algo traumático. Descobri que criança é forte e que não existe mal algum em engatinhar no chão sujo, comer terra, ser picado por mosquitos ou chorar sem ser atendido no mesmo instante.
Que um hospital é uma empresa, que a área de pediatria dá muito trabalho e que não é lucrativa, sendo assim, não recebe investimentos nem dos hospitais e nem gera interesse dos acadêmicos de medicina e baste que você passe por uma situação dessas para chegar a mesma conclusão. Também que os médicos são pessoas normais, que também cometem erros, que não sabem de tudo e que mesmo fazendo de tudo para salvar vidas, não possuem tal poder, o qual pertence somente ao Senhor.
Descobri que minha cama é a melhor do mundo e que a minha casa, com todos os seus defeitos, é o lugar mais acolhedor e aconchegante pra toda a minha família, aliás minha casa, assim como tudo o que possuo, passou a ser de ótimo tamanho pra mim.
Compreendi um pouco o que é se sentir agradecida e feliz em meio ao sofrimento, vendo pessoas passar por situações muito piores do que as minhas e muitas mães perdendo seus filhos.

Que Deus afofa a cama dos doentes. Eram sobrenaturais os sorrisos do meu filho e a forma como ele se sentia confortável com a minha presença. Um dia, antes de ir para uma cirurgia, meu filho não podia mamar, tinha que ficar em jejum. Um bebê de 3 meses, quase 20 horas sem mamar. Ele acordava chorando exatamente nos horários da mamada, então eu o pegava no colo, dava uma chupeta pra ele e o embalava enquanto cantava sempre a mesma canção, que embalou todo esse momento que passamos. Ele se acalmava, relaxava e dormia, como se estivesse satisfeito, mamado um montão. A canção era mais ou menos assim:

O Senhor, é o meu Pastor e nada irá me faltar, ele é quem renova o meu vigor, em justos caminhos me faz andar, mesmo que eu tenha que um dia enfrentar, problemas e lutas e possa sofrer, se o inimigo quiser me abalar, com suas mentiras tentar me prender, não vou temer, vou confiar, o Senhor virá me salvar!” Essa aqui: https://www.youtube.com/watch?v=VamiR3_rcRc&index=8&list=PLiZjOtulp-SvRtEJeZss42MmERo-qV0l

 

Tenho a certeza de que Ele nos Salvou e que ele sempre nos Salva, independente do que estamos vendo!
Essa foto, eu bati na manhã antes dele entrar pra terceira cirurgia. Ele estava há aproximadamente 20 horas sem comer. Como pode esse sorriso? Só o amor de Deus explica!
Deus abençoe 🙂
Carol Piscke

4 comentários em “Um Parto Anormal – Relatos de uma Mãe

  1. Uau Carol, esse texto foi punk… Como Deus é maravilhoso! Chego a conclusão que Deus tem tanto tanto pra nos ensinar, temos tanto pra conhecer de Deus e pra entender da vida e de nós mesmos. Só Deus pra conseguir transformar uma situação em um aprendizado impactante nas nossas vidas. Obrigada por compartilhar essa história ♥

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  2. Uau! Sem palavras!!! Só água nos olhos!!! Hehe
    Nosso primeiro filho, foi uma gravidez de novela, como dizia o obstetra, hehe, e tudo foi muito fácil e tranquilo, ele foi um bebê tb de novela, dormia a noite toda desde 1 mês de vida, foi muito tranquilo…
    Porém o segundo, veio em um momento de loucura na nossa vida, e a gravidez já começou com uma infecção, que logo foi resolvida, mas a gravidez seguiu muito diferente da primeira, sem maiores problemas, mas cheia de sintomas, cansaços, etc…
    Aí nasceu nosso segundo menino, (como vcs, 2 guris), um presentinho fofo que amamos, porém, totalmente diferente do primeiro, com ele tudo é difícil, tudoooo!!!
    E em muitos momentos de dificuldades, me lembrei do que passaram com o segundo filho, legal saber dos detalhes assim, linda a sua força, me alegro muito com vocês, em ver os 2 tão saudáveis e felizes!!!
    Bjs 😉

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  3. Oi…
    Quanto tempo Carol…quanta saudade de nossa infância, das férias de fim de ano na casa da Omã.
    Li cada uma de suas postagens, e de alguma forma me vi em pedacinhos delas, realmente só as misericórdias do Senhor em nossa vida, e como é bom poder testemunhar delas.

    Abraço carinhoso.
    Ariana

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